ABEA – UFF
XI JORNADA DE ESTUDOS AMERICANOS RAÍZES E RUMOS
Painel nº.4: Encruzilhadas Multiétnicas: Raízes e Rumos
da Construção Identitária nas Américas
DIÁLOGO MULTIÉTNICO:
História e Memória de Negros e Índios em Toni Morrison e Vargas Llosa
por
Graça Graúna (Doutoranda/UFPE)
"...eis a nossa gente
a nossa gente transpondo mares e mares
carne da nossa carne
sangue do nosso sangue disperso pelo Mundo."
(JOFRE ROCHA, 1999:260)
"Pemêe jevy pemêe jevy
Oreyvy peraa va’ekue
Roiko’i haguã
Peraa va’kue roiko’i haguâ."
(CANTO GUARANI)
A diversidade cultural, as fronteiras do texto e seus contrapontos dão conta de que uma das funções da contraliteratura (literatura minoritária) é interpretar a consciência coletiva e nacional e convocar a uma solidariedade ativa (Cf. Zilá Bernd, 1988, em sua Introdução à literatura negra). Essa desobediência aos paradigmas permite "que venha à tona o homem concreto e sua denúncia" (BERND,1988:42), embora a tendência seja a de se manter "nas fronteiras da marginalidade, se não completamente marginais" (BERND, 1988:45).
Para entender as fronteiras da marginalidade entre a literatura afro-americana e a literatura hispano-americana, o presente trabalho objetiva considerar o jogo das semelhanças e diferenças no tratamento das questões do descentramento do ameríndio no romance O Falador, de Vargas Llosa (1988) e o papel da(s) negritude(s) como um traço de união na diversidade cultural americana em Amada, de Toni Morrison (1987). Analisar as fronteiras entre o discurso do autor e o discurso do outro em Llosa e Morrison implica um olhar comparatista sobre o conjunto de projetos e representações do indivíduo em Amada e O Falador. Nessa perspectiva, a proposta de Roland Walter (1999) acerca de uma metodologia híbrida para a análise das políticas e poéticas transculturais de deslocamento e relocação nas Américas (grifo nosso) implica um dos fundamentos da nossa abordagem acerca dos espaços fronteiriços que ligam e diferenciam as culturas no romance/memória da afro-americana Toni Morrison e no meta-romance indigenista do peruano Mario Vargas Llosa.
Em Morrison (1987) e em Llosa (1988), as trilhas da história, da memória e do deslocamento exigem um olhar mais discernidor daqueles que se ocupam não somente dos problemas de Literatura; mas de Filosofia, Lingüística, Economia, História, Antropologia, Ciências Sociais e outras áreas de conhecimento. Na área da etnologia, João Pacheco de Oliveira (1998), focaliza a territorialização dos índios do Nordeste e da Amazônia, e adverte que "a ‘etnologia das perdas’ deixou de possuir um apelo descritivo ou interpretativo e a potencialidade da área do ponto de vista teórico passou a ser o debate sobre a problemática das emergências étnicas e da reconstrução cultural" (OLIVEIRA, In: Mana 4(1):47-77, 1998:53).
No cenário da literatura hispano-americana, as contribuições de Llosa revelam personagens que guardam uma certa semelhança com o seu criador. Isto ocorre nos romances Tia Júlia e o escrevinhador (1977) e O Falador (1988). Este último romance, alternado em duas narrativas, é vivido por dois personagens: o escrevinhador que em sua passagem por Florença recorda-se de Mascarita, um amigo de juventude em Lima, fascinado pela cultura indígena. O outro personagem remete ao título do romance; trata-se do falador: contador da história e da memória dos habitantes da floresta; conhecedor da existência, das magias e dos mitos dos índios Machiguenga em meio ao processo de (des)territorialização da Amazônia peruana. Cabe salientar que esse processo reporta-nos à Amazônia brasileira, onde a mais grave ameaça é "a invasão dos territórios indígenas e a degradação de seus recursos ambientais, no caso do Nordeste [do Brasil], o desafio à ação indigenista é restabelecer os territórios indígenas, promovendo a retirada dos não-índios das áreas indígenas, desnaturalizando a ‘mistura’ como única via de sobrevivência e cidadania" (OLIVEIRA, 1998:53).
Aclamada pela crítica americana por sua maneira de combinar a realidade com visões de lendas e magia centradas na alma e na cultura negra, Morrison situa em Amada, o período inicial da pós-Guerra Civil Americana. No espaço do romance, uma casa branca e cinzenta e assombrada pelo mundo branco que a discrimina, e pelo fantasma de uma criança põe em conflito os seus habitantes (Sethe, Baby Suggs, Denver, Howard, Buglar e Paul D) e a vizinhança da Bluestone Road. Dos habitantes, a mais atormentada pelo fantasma é Sethe: uma ex-escrava que matou a filha (fantasma-criança-amada/fantasma-mulher-Amada) para livrá-la do mundo de servidão. Esse fantasma aparece mais intensamente quando Paul D reencontra Sethe: sua antiga companheira dos tempos de escravidão.
As questões relativas ao deslocamento vivido pelos personagens de Morrison e Llosa mostram um recorte de perdas e ganhos na relação entre os povos e suas manifestações na música, na dança e na literatura. As perdas caracterizam "toda a cultura latino-americana do Caribe ao Prata, e que foi concebida por Fernando Ortiz, em 1940 (e, posteriormente, retomada por Angel Rama) como o processo que não implica apenas adquirir uma cultura (aculturação)" (Cf.BERND,1987:47). Nas palavras de Ortiz (Contrapuento cubano del tabaco y el azúcar, 1978), esse processo "implica também necessariamente na perda de uma cultura precedente (parcial desculturação) e a conseqüente criação de novos fenômenos culturais que poderiam ser chamados de neoculturação". Em relação ao contexto cubano, convém ressaltar que a música e a dança do africano e a influência rítmica fazem parte de um curiosíssimo fenômeno de transculturação; pois em Cuba, "hace siglos, pudiera decirse que casi desde su misma conquista y popblamiento por los blancos, tenemos a la vez pobladores negro que trajeron consigo de África su música y tambores" (ORTIZ, 1978:196).
A questão identidade/alteridade convoca-nos a repensar o direito à diferença para entender o outro e compreender melhor a nós mesmos. Esse processo que só existe pela consciência de nos tornarmos outro, sendo nós mesmos converge à visão indianista em Llosa e da africanidade em Morrison e reporta-nos a Octavio Paz, cuja concepção de alteridade/identidade implica um "processo/dinâmica que se constrói e se desconstrói sem dissociar-se do conceito de alteridade," pois só existe identidade pela consciência de diferença que é posta por uma situação de estranhamento" (PAZ, apud BERND, 1987:38). Nesse patamar, temos em Llosa o narrador que é um sujeito escrevinhador da história do outro (o que está de fora, isto é, prefere falar da história a vivê-la), e o falador Saul/Mascarita: um contador de história e sujeito também da (auto)história.
Nessa direção, a sintaxe da identidade/alteridade coloca-nos diante do ato de narrar/contar história que requer do narrador tradicional (narrador épico) uma certa habilidade de trazer ao presente algo que aconteceu no passado; seja na orlalidade, ou na escrita. O personagem escrevinhador de Llosa implica o narrador tradicional, de fora, enquanto o personagem falador guarda características do épico por mostrar/refazer a história; no sentido de colaborar com a formação do povo; trata-se de um personagem de dentro, heróico, porque vive a história. Ao contrário deste, o escrevinhador explica em sua crítica/escritura (metaficção) as dificuldades para livrar-se do acossamento de Saul/Mascarita; o outro que ele reconhece:
"O outro [...] põe diante de mim uma treva que, quanto mais tento perfurar mais se adensa.[...] falar como fala um falador é haver chegado a sentir e viver o mais íntimo dessa cultura, haver calado em suas entranhas, chegado ao tutano de sua história e sua mitologia, somatizado seus tabus, imagens, apetites e terrores ancestrais. É ser, da maneira mais essencial possível, um machiguenga radical, mais um da antiqüíssima estirpe que [...] mantém vivo entre eles o sentimento de estar juntos, de construir algo fraterno e compacto.[...] andar pelas selvas da Amazônia, prolongando, contra tudo e todos – e, sobretudo, contra as próprias noções de modernidade e progresso - " (LLOSA, 1988:213).
Tomando como base as referências históricas do texto, a dimensão mítica do tempo e a relação entre história e memória em Llosa e Moorison; a percepção que temos é a de que alguma coisa (a perda) remete ou se mistura ao outro, numa série de contrapontos. No romance de Llosa, os rostos do passado nas fotografias orientam o olhar daquele narrador que procura a ressonância da memória, das lembranças. Assim: "...foram três ou quatro fotografias que me devolveram, de chofre, o sabor da selva peruana. Os largos rios, as corpulentas árvores, as frágeis canoas, as fracas cabanas sobre palafitas e os viveiros de homens e mulheres, seminus e lambuzados de tinta, contemplando-me fixamente de suas brilhantes cartolinas" (LLOSA, 1988:7) Esse ponto de vista do narrador na cidade de Florença expressa um ser à margem das raízes e do contato com o outro, isto é, Saul/Mascarita; mais que uma representação, Saul/Mascarita é um ser "enfeitiçado pelos homens da floresta e a natureza intocada, pelas culturas primitivas, minúsculas, dispersas na colinas silvestres da montanha e na planície da Amazônia" (LLOSA, 1988:15). Mascarita é uma transfiguração do outro que envereda nesse caminho para não sair; nunca mais.
Observando a linhagem do contador de história em Llosa, não poderíamos nos furtar das palavras que principiam a história de Amada, em Morrison: "A 124 ERA RANCOROSA" (MORRISON, 1987:11). Com o ritmo de quem acompanha os passos dos fantasmas da casa rancorosa de Bluestone Road, um tecido de vozes em Amada conta uma história. Vozes de homens e mulheres desolados, deslocados: "...homens e mulheres eram removidos de um lugar para o outro como peças nun jogo de damas. Todos os homens que Baby Suggs conhecera ou amara, exceto os que haviam fugido ou sido enforcados, tinham sido alugados, emprestados, comprados, recomprados, hipotecados, presenteados, roubados ou capturados" (MORRISON, 1987:34). São vozes minoritárias, subalternas (WALTER, 1999) na ótica de uma escrita de autoria feminina sobre um punhado de coisas acontecidas com os negros de Cincinnati, no Estado de Ohio, por volta de 1873; coisas extraídas do desejo de recompor o mosaico de uma cultura fragmentada pelos algozes:
"Sethe e a filha Denver eras as únicas vítimas. A avó, Baby Suggs, estava morta; os garotos, Howard e Buglar, tinham fugido aos treze anos – logo que um simples olhar para um espelho o fez em pedaços (o sinal para Buglar); logo que a impressão de duas mãozinhas apareceu no bolo (o sinal para Howard). Nenhum dos dois esperou para ver outro punhado de grão-de-bico fumegando no chão ou biscoitos de água e sal moídos e espalhados perto do batente da porta. [...] Fugiram no exato instante em que a casa cometeu o que era, para cada um deles, o único insulto impossível de ser suportado ou testemunhado numa Segunda vez. [Os irmãos] enfiaram um pacote de roupas no chapéu, pegaram os sapatos e esgueiraram-se para longe do vivo rancor que a casa sentia por eles" (MORRISON, 1987:11).
Em debate sobre o negro na literatura, Octavio Ianni (1990) defende que o tempo presente na literatura negra é um tempo diferente porque implica "séculos de sofrença! Uma sofrença que é do povo, não só do negro" (IANNI,1990:188).Essa "sofrença" caracteriza o "eu coletivo" da poesia, do romance, do conto do escritor negro. Enquanto a "grande literatura" fala de um eu individualista, "de uma sociedade burguesa que atomiza e altera os indivíduos, e o escritor burguês expressa isso, com mais força" (IANNI, 1990:188); a literatura das minorias e sobre as minorias revela que a percepção do escritor negro sugere mais intimidade com o tempo, isto é, parece mais voltado para o tempo psicológico; considerando que o escritor negro trabalha, simultaneamente, o tempo biográfico, histórico e mítico; um tempo centrado na vontade de falar de séculos, vontade de falar da África.
Denunciar o sofrimento da população negra e/ou indígena, por exemplo, é refazer a história na sua verdade, para formar uma fisionomia do povo negro, do povo índio. Com efeito, a verdade e a fisionomia do negro atreladas à dimensão temporal (presente, passado e futuro) em Morrison, mostra-nos o diálogo multiétnico na memória de Paul D com um grupo de índios no acampamento. Na visão do índio, o negro Paul D não é uma mera representação naquele acampamento, mas a transfiguração do "último homem com cabelos iguais ao pelo de búfalo entre os cherokee enfermos" (MORRISON, 1987:134).
Em Morrison, esse diálogo conduz à esperança vã dos membros dessa tribo diante do que traduziram e escreveram em sua linguagem, tanto nas petições ao Rei de Espanha, quanto na visita ao Rei George III em Londres (MORRISON, 1987:133). Esse diálogo interétnico conduze-nos, ainda, ao encontro de Sixo com Patsy, a mulher dos quarenta e cinco quilômetros em "uma caverna deserta que os pele-vermelhas haviam usado antigamente, quando pensavam que a terra era deles. [...] Lá dentro, perguntou aos espectros dos pele-vermelhas se podia levar sua mulher ali. Eles concordaram e Sixo instruiu minuciosamente a moça sobre como chegar lá..."( MORRISON, 1987:36).
Em Morrison, a escritura e a oralidade parecem intimamente ligadas as cores desbotadas das paredes da personagem rancorosa (a casa) e à trilha de luz vermelha que, no dizer da contadora de história: "não é algo mau, só triste" (MORRISON, 1987:18). Esse "algo" faz parte dos vestígios da história e da memória que a Autora procura des/recodificar "e, neste processo, falar o indizível da experiência traumática de travessia, escravidão e de racismo - este indizível que desencadeia a imaginação/a escrita a partir da memória 'esquecida' porque suprimida, baseada na incapacidade de percebê-la e, portanto, simbolizá-la." (WALTER. In: Toni Morrison: em busca do paraíso. Comunicação apresentada à AMPOL/99). No curso da história, os lugares, as pessoas em Amada e O Falador transgridem o que está sendo contado e questionam os espaços fronteiriços onde se lê as vozes das diferenças, porque não existe unidade. Em Llosa e em Morrison, história e memória sugerem as vozes das diferenças que se projetam no ritmos das lembranças, na experiência/competência dos personagens, na relação do indivíduo com a sociedade. Deste ponto de vista, convém repensar "o conhecimento da memória, do legado cultural, a força de vontade de analisar o passado para compreender o presente, não garante solucionar a crise identitária dos afro-americanos" (MORRISON, apud WALTER, ANPOL, 1999).
Em sua contribuição à crítica da cultura do ensaísmo latino-americano, através da leitura de Euclides da Cunha e Otávio Paz, a ensaísta Ana Maria Roland (1997) evoca a melancolia benjaminiana diante da morte do narrador e salienta que "já não se transmite, exemplarmente, uma experiência.[...] Mas nas mãos de um grande escritor o livro vive, a palavra inscreve-se e traslada-se para seu texto" (ROLAND, 1977, 30-31). Em Morrison e Llosa, a história e a memória revelam o diálogo que existe entre a voz e a escrita. Amada e O Falador vivem. O livro vive. Desse modo, não podemos esquecer que "a escrita é mais resistente do que o corpo [e] pode sobreviver a muitas vidas [porque] a escrita é uma espécie de testemunho temível, quando por ela fica registrada a experiência das individualidades excepcionais e das nações" (ROLAND, 1999:31).
As literaturas que trafegam na contramão "emergem em geral nas geografias marcadas pela instituição colonial (Américas, Áfricas)" (BERND, 1998:39). Isto significa "novas possibilidades de alianças que reconhecem suas especificidades e diferenças intrínsecas" (WALTER, 1999:264). Em outras palavras, assim nos parece a literatura de hifenização em Morrison e Lllosa, e as teorias literárias periféricas que emigraram de um processo histórico de colonização.
Desse modo, o ato de Ler/escrever a história, observar atentamente; ouvir/contar a memória de negros e índios no processo construção/desconstrução é uma questão tão importante quanto necessária à percepção do contato multiétnico sonhada por José Marti.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BERND, Zilá. Negritude e literatura na América latina. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.
______. Introdução à literatura negra, Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.
______. A literatura comparada e as literaturas periféricas. In: MARQUES, Reinaldo e BITTENCOURT, Gilda Neves (org.). Limiares críticos. Belo Horizonte: Autêntica, 1998, p.39.
IANNI, Octavio. O negro na literatura brasileira. In: Seminários de literatura Brasileira: ensaios. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/Fundação Nestlé de Cultura, 1990, p.188.
LLOSA, Mario Vargas. O Falador. 3ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988, 214p.
MORRISON, Toni. Amada. São Paulo: Editora Best Seller, 1987, 321p.
OLIVEIRA, João Pacheco de. Uma etnologia dos ‘índios misturados’? Situação colonial, territorialização e fluxos culturais. In: Mana 4(1):47-77, 1998, p. 53.
ORTIZ, Fernando. Contrapuento cubano del tabaco y el azúcar. Caracas: Ayacucho, 1978.
ROCHA, Jofre. Cântico de alforria. In: ROZÁRIO, Denira (Org.). Palavra de Poeta. Antologia de poetas de Cabo Verde e Angola. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999, p. 260.
ROLAND, Ana Maria. Fronteira da palavra, fronteiras da história. Brasília: Editora UNB, 1997.
WALTER, Roland. Identidades narrativas: esboço de uma metodologia híbrida para a análise das políticas e poéticas transculturais de deslocamento e relocação nas Américas. In: Encontro – Revista do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco. Recife: Bagaço, 1999, Ano 15, (15) 259-264.